Carta à Irmã Détinha

A final fiquei pasmada
Está bem melhor do que eu
Que não tenho fé em nada
Deus lhe pague esta alegria
De me deixar encantada
Você que bem me conhece
Sabe que às vezes parece
Que não dou pelo que acontece
Que não gosto de crianças
Que sou seca e sou distante
Bem...passemos adiante!
O que eu lhe queria dizer
E dizer não me dá jeito
Do nó que tenho no peito
Com saudades do Tomás
E saudades do Miguel
Que são uns filhos da mãe
Parece que você tem
A varinha do condão
Onde você põe a mão
Fica logo diferente
Mesmo o Souto que era cão
Parecia que era gente
Por mim peço-lhe perdão
De assim me ter encontrado
Ou por outra, tão deitado,
E ri aquele bocado
Com os versos da figueira
Foi porque a tinha ao meu lado
Vou esperar o resultado
Fiada na medicina
Tanto remédio tomado
E a fraqueza não declina
Mas se ela declinar
E eu me poder levantar
Lá irei ver a menina
A menina e os meninos
A carta já vai comprida
E é pouco divertida
Mas ando tão desnutrida
Que até me sobe ao miolo
A falta de nutrição
Vou hoje comer um bolo
Parece que melhorei
Té comi um bolo rei
Sabe do que me lembrei?
A fava que me calhava!...

Amália Rodrigues